MINHA CASA CAIU!

Só quem já passou por isso imagina o desespero do microempresário paulista ao encontrar sua casa no chão. Como ele, outras pessoas viram seus sonhos desmoronar e descobriram que as causas estavam no projeto e na construção descuidada.

Faz dezoito meses que a laje de 40 m2, do primeiro pavimento da casa, ruiu. Os pedreiros já tinham ido embora, o que evitou uma desgraça. O prejuízo econômico e o atraso de um ano na obra, porém, foram inevitáveis. Tudo porque faltava um pilar para sustentar a laje, conforme apontou a perícia técnica feita por engenheiro, contratado pelo proprietário em São Bemardo do Campo, SP. Para o consultor, o problema não era um só: "Faltava qualidade em tudo, inclusive nas fundações".
Tragédias como essa e a do Palace II, o prédio que desabou no Rio de Janeiro, são mais frequentes do que se imagina. O drama do microempresário começou quando ele contratou um técnico para fazer sua construção de 500 m2 em três andares. O microempresário pretendia instalar sua fábrica de bolsas no térreo, a moradia no primeiro piso e uma área de lazer na cobertura. Ele imaginava tocar a obra sem aprovar o projeto, deixando isso para depois. Contratou, então, um pedreiro e sua equipe, e começaram a trabalhar. Quando o acidente ocorreu, faltava ainda concretar a cobertura. "Fui abandonado no instante em que a laje desabou." Antes de retomar a construção, encomendou o projeto a um arquiteto, pediu a aprovação na prefeitura, chamou um engenheiro de cálculo estrutural e contratou uma empreiteira e outro arquiteto para realizarem o trabalho.
Assim como ele, uma empresária carioca aprendeu a duras penas que, para construir, não basta chamar um pedreiro. Há quarenta anos, seu avô encomendou a um mestre-de-obras um sobrado no litoral do Rio de Janeiro. A estrutura estava pronta. Quando tudo desmoronou. Motivo? Erro nas fundações, que deveriam ser profundas por causa do terreno arenoso. O pai da empresária retomou a obra com o mesmo profissional. Antes que ela ficasse pronta, cedeu duas vezes, o que obrigou a reforçar as sapatas da fundação com mais ferragens e concreto. A moradia ficou assim por alguns anos, até que outro mestre-de-obras foi chamado para uma grande ampliação. Quinze anos se passaram, e foi a vez de a empresária ver a parte anexa rachar de cima a baixo, nos encontros entre as paredes e o piso. O mestre-de-obras chegou a calçar as fundações com pedras, mas as trincas só aumentaram. A sentença de demolição veio de um engenheiro calculista: a estrutura da área ampliada não estava amarrada à da construção original. Além disso, a parte nova não tinha alicerces. Desolada, ela vendeu a propriedade.
Outro que teve problemas foi o técnico suíço que há quatro anos, de férias em Salvador, BA, encontrou um conterrâneo conhecido, ex-caminhoneiro que tinha montado uma construtora e garantiu fazer uma casa para ele por R$ 50.000,00 Contrato assinado, o técnico voltou para seu país e, ao retornar ao Brasil, seu refúgio tropical estava pronto. Algumas semanas depois, o piso da sala abriu-se em uma rachadura que se estendia pela parede. Chamada a Defesa Civil, constatou-se que as fundações eram inadequadas para o solo arenoso. Detectou-se, ainda, que a laje de uma das varandas não tinha juntas de dilatação e, por isso, trincou. Hoje, enquanto tentam reparar os danos, ele e sua esposa, se "divertem" jogando bola na sala. Ou melhor, colocam a bola em um dos cantos e esperam que ela role sozinha, velozmente, para o outro lado.

EM BUSCA DE SEGURANÇA:
Engenheiros e arquitetos concordam que para uma construção ser conduzida com segurança é necessário, em primeiro lugar, providenciar os projetos arquitetônico, estrutural, elétrico e hidráulico. Além disso, é fundamental aprovar a planta na prefeitura antes de iniciar a obra.
A qualidade e a solidez também passam pelos materiais. "Opte por produtos com certificação de qualidade e conformidade a normas técnicas". Em geral, os materiais certificados trazem um selo com as siglas ISO 9000 (padrão internacional de garantia de fabricação), ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) ou Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia). Na hora de contratar os profissionais, escolha quem apresente um currículo com bons antecedentes. Solicitar referências é sempre importante.
O cuidado na definição de arquitetos e engenheiros tem suas razões. Em Niterói, RJ, a história de um casal acabou de modo trágico. A casa onde viviam estava pronta há seis meses quando veio abaixo, matando o morador e uma irmã da dona da casa, que ficou ferida. Segundo os laudos da Defesa Civil e do Instituto Carlos Éboli, ambos do Rio de Janeiro, a estrutura era frágil, apresentando quantidade insuficiente de ferragens e blocos de concreto inadequados. Além disso, teria havido um rebaixamento das fundações motivado por acomodações do solo.


TRABALHO MAIS RESPONSÁVEL:
Desde o desabamento do edifício Palace II, uma pergunta paira no ar: como aumentar a segurança estrutural de uma construção? Para o engenheiro carioca especializado em estruturas, o sistema de aprovação de um projeto é falho. "Não se cobra um projeto estrutural. Se ele fosse obrigatório, erros frequentes seriam evitados." O mesmo pensam os integrantes da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural. Mas há quem duvide da capacidade técnica das prefeituras para analisar um projeto estrutural.


FIQUE DE OLHO

Para que sua casa não desça ladeira abaixo, fique atento a cada etapa do processo.

TERRENO: Suas características determinarão obras e custos. Um lote plano pede fundações simples e baratas. Se houver um aclive ou um declive, quanto maior a inclinação, mais se gastará com o preparo do terreno, que pode requere um muro de arrimo especial ou um talude.
FUNDAÇÕES: Fundações: Delas depende a solidez da futura moradia. Por isso, é recomendado uma sondagem no terreno, para que o projetista de estrutura conheça as características do solo, e assim, indique o alicerce mais adequado. Também é importante atentar para a impermeabilização do baldrame, uma espécie de cinta que amarra as brocas e sapatas. Se ele não estiver bem impermeabilizado, as paredes sofrerão com a umidade vinda do solo. Dependendo do terreno é preciso usar manta asfáltica para obter um resultado de qualidade.
ESTRUTURA: Se ela for bem feita, a função exclusiva das paredes será fechar os vãos. Isso justifica porque é tão importante o projeto de estruturas definir corretamente as medidas de pilares e vigas – se estiverem mal dimensionados, levarão a um gasto exagerado ou a um comprometimento da construção. A concretagem deverá ser feita através de concreto preparado em usina. Ele é produzido sob controle de qualidade com diferentes resistências, adequadas para cada tipo de estrutura.
ALVENARIA: Quanto mais pesado o bloco para fechar as paredes, mais robusta e cara será a estrutura. Quase sempre, as trincas nas paredes refletem uma movimentação da estrutura. Recomenda-se que seja colada uma lâmina fina, de 2 a 3mm de espessura de vidro, sobre a fissura. Passado algum tempo, se o vidro trincar, é porque o problema está evoluindo. Existe rachaduras que surgem em função das diferenças de temperatura, trabalhando como juntas de dilatação. Isso acontece quando a estrutura não está bem consolidada.
ELÉTRICA E HIDRÁULICA: Essas instalações representam etapas delicadas da obra e também interferem na segurança da moradia. Imagine, por exemplo, se uma conexão hidráulica vazar sobre uma viga. Na presença de umidade, o concreto se desagregará e suas ferragens poderão oxidar. Caso não haja manutenção, é possível que a peça se rompa. Já um problema elétrico pode acabar em incêndio.
COBERTURA: Certifique-se de que a madeira do telhado esteja seca, pois do contrário ela se deformará, e, com isso, podem ocorrer infiltrações. Se você preferir fazer apenas uma laje, preste atenção no teor do cimento do concreto. Ele deverá ser mais alto que o comum, para que a cobertura se torne impermeável. Não deixe de observar, também, o caimento da laje, para facilitar o escoamento da água da chuva.

Fonte: Revista Arquitetura e Construção - Abril/98
Para ler esta reportagem na íntegra procure a fonte citada em bancas ou bibliotecas de sua cidade.

Ao desabar, a laje que sustentava o primeiro pavimento derrubou parte da fachada principal da casa em São Bernardo do Campo.