CONSTRUIR POR CONTA PRÓPRIA:
O BARATO QUE SAI CARO!

Abrir mão de um arquiteto ou engenheiro para projetar e tocar a obra é como automedicar-se. Pode ser que tudo dê certo. Mas esse caminho também implica riscos e, no caso da construção, erros que comprometem a segurança da casa.


O dentista H.L., de São Paulo, começou a construir sua casa de campo há quinze anos, num condomínio retirado da cidade. Primeiramente, fez uma área para churrasqueira e depois foi acrescentando um cômodo, outro, até chegar a uma moradia completa, com cozinha, salas e varandas. Nesse processo todo, ele nunca teve um projeto nem contratou arquiteto ou engenheiro. Preferiu tocar tudo só com mestre-de-obras e pedreiros e transformou o empreendimento numa espécie de hobby. "Gosto de vir para cá todo final de semana para fiscalizar o trabalho e pagar o pessoal", conta.
O resultado da experiência não é dos melhores. Como nunca fez um cronograma com prazos e custos, ele não sabe o quanto gastou - em abril, início desta reportagem, estava na reta final dos acabamentos. Mas admite que, se tivesse acompanhamento profissional e um projeto nas mãos, teria evitado muito desperdício. "Sou péssimo administrador de dinheiro e não faço contas", diz. Pior do que a questão financeira são os problemas com o dimensionamento dos cômodos, os tamanhos reduzidos das janelas e a circulação complicada entre os ambientes. "Pensando na segurança da família, coloquei portas e janelas de ferro. Quando me toquei, parecia um presídio", conta ele, que teve de trocar algumas delas por peças de madeira. Além disso, reclama do pé-direito da sala - tão baixo que se pode alcançar com as mãos. Preocupado, o dentista fez uma consulta técnica a um arquiteto, que listou os erros e sugeriu várias modificações. Sem elas, H. L. e sua família não contarão com uma casa confortável, mesmo depois de todo tempo e dinheiro gastos.

PREJUÍZO E FALTA DE QUALIDADE A história do dentista não é rara e alerta para o perigo que corremos ao erguer uma casa sem o olho clínico de um arquiteto ou engenheiro. Uma pesquisa feita pela Associação Nacional dos Fabricantes de Materiais de Construção (Anamaco) com revendedores de todo o país mostra que a maior parte das construções do país é erguida sem acompanhamento profissional. Os projetos são desenhados pelo proprietário. O desperdício é só uma das consequências dessa situação. "Mesmo um bom mestre-de-obras não sabe dimensionar as estruturas para garantir a segurança da construção", alerta o arquiteto Gilberto Belleza, vicepresidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-SP). "Para se certificar de que a casa não cairá, eles gastam muito mais concreto e ferro do que o necessário", completa. A escolha errada de materiais também pode gerar prejuízo.
Sem um projeto, não podemos orçar com precisão todos os serviços e as compras, planejar as instalações elétricas e hidráulicas e, se necessário, dividir a obra em etapas de acordo com o dinheiro disponível. Além disso, ele é um documento que funciona como memória da casa - se um dia ela for reformada, dá para saber por meio das plantas onde estão as tubulações, as vigas e as colunas. "Muitas vezes o cliente não entende por que deve gastar num projeto antes de começar a obra", acontece que a economia só aparece quando a construção está em andamento. Os arquitetos chamam a atenção ainda para os erros decorrentes do desconhecimento da legislação. Muitas construções que não levam em conta os recuos obrigatórios acabam sendo embargadas. Ter um projeto meia-boca é tão arriscado quanto não ter projeto algum. Entenda-se pelo termo aquela planta feita só para aprovação na prefeitura, uma espécie de layout sem cálculo estrutural, sem planejamento de elétrica e de hidráulica. "Você a leva para o empreiteiro, que pode fazer uma casa parecida com a do desenho. Mas, sem os projetos específicos, ele não saberá executá-la bem e gastará mais do que o necessário".
Para construir sem prejuízo, é preciso ter uma "receita de bolo", ou seja, saber quanto vai gastar de canos, de fios, de tijolos, de telhas... E, esse orçamento exato, só um profissional faz.

O QUE DIZ A LEGISLAÇÃO Se tantas pessoas fazem sozinhas sua moradia, como essas obras não são interditadas? Em geral, os donos conseguem um desenho que satisfaça as especificações técnicas da administração municipal. "Para aprovar uma obra na prefeitura, o proprietário pode simplesmente pedir a um arquiteto ou engenheiro registrado no Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia, o CREA, que assine a planta", diz o arquiteto paulista Vasco Mello, um dos diretores do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva. Outros moradores mantêm a obra irregular até que a fiscalização apareça, correndo o risco de interdição. "O CREA tem fiscais nas ruas e recebe denúncias de obras tocadas sem um profissional responsável. E, quando suspeitamos de que algum deles apenas assinou a planta sem ter feito o projeto, abrimos um processo que pode levar à perda de registro no conselho" , avisa César Rivelli, segundo vice presidente do CREA-SP.
As exigências legais, vale lembrar, variam de um município a outro. Em Salvador, a fiscalização e a autorização de construção são feitas pela Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo (Sucom), ligada à prefeitura. A planta apresentada não precisa ter especificação de elétrica e hidráulica, mas só a distribuição e as medidas dos ambientes. Deve ser assinada por um responsável técnico, o arquiteto ou o engenheiro credenciados na prefeitura. Também no Estado de São Paulo, em geral as prefeituras pedem apenas a planta de distribuição de espaço. "Seria muito bom se exigissem o projeto todo. Ter arquiteto e engenheiro fazendo o trabalho dá uma garantia maior ao morador", acha Rivelli, que também finaliza: “O desperdício com material e com erros durante a obra ultrapassa o valor pago num projeto”

O QUE PODE ACONTECER SEM UM PROJETO

Quando nos arriscamos a ser nosso próprio arquiteto, podemos tropeçar pelo caminho.

Fonte: Revista Arquitetura e Construção - Agosto/99
Para ler esta reportagem na íntegra procure a fonte citada em bancas ou bibliotecas de sua cidade.